sexta-feira, 2 de agosto de 2013

A rodar: Miles Davis - 'Round About Midnight - Mobile Fidelity Sound Lab Vinil LP


(for this review in English please click here)

Esperei ansiosamente pelas reedições de Miles Davis da Mobile Fidelity Sound Lab (MFSL) e agora finalmente começaram a sair algumas, recentemente a MFSL remasterizou e reeditou Round About Midnight, Milestones, Four & More e In a Silent Way, e todos os apreciadores de Jazz e Música em geral aguardam agora pacientemente pela reedição de Kind Of Blue em duplo LP a 45rpm por esta editora de discos audiófilos com longo histórico! Enquanto esse não chega, deitei as mãos ao Round About Midnight que é um dos meus álbuns preferidos e aqui estou para partilhar o que penso sobre o trabalho da MFSL neste disco.

Até agora além das edições originais americanas apenas uma edição da Speakers Corner de 2008 em vinil de 180gr e prensado na famosa fábrica da Pallas na Alemanha entrava no "radar" audiófilo, ou seja trata-se de um álbum que não foi muito lembrado no formato vinil pelas editoras audiófilas nos últimos anos e que na verdade só agora uma editora com créditos firmados decidiu dar-lhe tratamento realmente especial recorrendo às Master Tapes Originais e realizando uma masterização 100% analógica num sistema de referência. Por isso mesmo, e porque alguns leitores fizeram especificamente essa pergunta e pediram a minha contribuição, faz sentido fazer uma comparação entre o LP da Speakers Corner e esta nova tentativa da MFSL.

A primeira impressão no manuseamento das capas é de que a edição da MFSL é bastante mais cuidada e sólida além de usar uma grafismo de melhor qualidade... por comparação a capa da edição da Speakers Corner é bastante mais flexível e com a imagem de capa mais esbatida. Mas vamos ao que interessa: depois de lavar profundamente os dois discos (mesmo quando novos, lavo sempre todos os discos, para eliminar resíduos que tenham sido depositados ainda na fábrica) entreguei-me a ouvir várias vezes as duas versões no meu sistema de som concentrando-me nas duas primeiras faixas para manter o comparativo o mais simples e objectivo possível e detectar os mais pequenos detalhes e diferenças, e depois ouvi numa única passagem os dois LP's por inteiro para ficar com uma noção geral da sonoridade e da abordagem técnica utilizada na masterização de cada um, durante a qual tomei algumas notas sobre como eles se comparam entre si.




Notas escritas durante a audição por inteiro do LP masterizado pela MFSL:

- Som em geral mais seco e doce, tudo soa com maior naturalidade e sem esforço. Sabe bem ouvir este LP, transmite uma sensação de bem estar ao ouvinte. É claramente um disco de referência que permite ao ouvinte usufruir plenamente desta gravação e performance fenomenais. Desde o primeiro contacto da agulha o prazer auditivo e emocional está garantido!

- O volume sonoro é bastante mais baixo do que na edição da Speakers Corner, normalmente isto é um bom indicador, é necessário aumentar razoavelmente o volume do amplificador para tirar partido da enorme dinâmica e resolução disponíveis.

- O som do contrabaixo tem tonalidade mais correcta e é apresentado de forma mais focada.

- Melhor definição da imagem no palco sonoro, a sensação de profundidade que se pode ouvir nesta gravação mono é impressionante nesta edição da MFSL.

- O saxofone tenor de John Coltrane tem mais corpo e tonalidade mais credível, a sua presença no mix sai favorecida nesta edição.

- O som dos címbalos aparece melhor colocado no mix e estes soam de forma mais extensa e suave sem que isso pareça ser provocado por qualquer tipo de corte nas frequências... soam tão bem que podiam tocar todo o dia sem cansar os ouvidos.




Depois, quando ouvi por inteiro a masterização da Speakers Corner escrevi o seguinte:

- Tonalidade geral perde em naturalidade, fica sempre uma sensação de "mão pesada" na masterização.

- Demasiado detalhe apresentado com destaque exagerado e artificial, todos os pormenores dos músicos e instrumentos e sons do ambiente saltam para a frente das colunas como se a música fosse um produto secundário desta gravação. Esses detalhes estão todos presentes na edição da MFSL (basta tocar esse LP mais alto para se ouvir a mesma coisa) mas são apresentados como tal, como detalhes e nada mais do que isso, exactamente como deve ser.

- O recorte do trompete de Miles Davis e dos címbalos é demasiado acutilante, não só me soou mais artificial como também se torna cansativo e afecta negativamente o envolvimento com a música.

- Parece-me evidente que foi aplicada alguma compressão ou limitação dinâmica, o que explica o volume bastante mais alto (apesar de ter uma zona de "run-off grooves" maior nos dois lados do disco) e a falta de espacialidade desta edição comparando com a da MFSL. A amplitude dinâmica reduzida torna a apresentação sonora mais densa como se estivesse espalmada, este efeito pode dar a sensação típica de maior energia e força mas tal acontece a custo do realismo e naturalidade do som em geral.

- O som é sempre tenso e algo agressivo, não permite o mesmo nível de envolvimento e relaxamento que a edição da MFSL oferece.

- As dicas espaciais deste mix mono (que agora sei como pode soar de forma espectacularmente dimensional depois de ouvir a edição da MFSL) foram praticamente suprimidas... profundidade severamente reduzida, o som parece agora emergir de uma parede onde todos os instrumentos competem por um lugar.




Notas finais sobre este comparativo:

Depois de ouvir apenas a primeira faixa de ambos os discos foi imediatamente óbvio onde estariam as principais diferenças mas a versão da Speakers Corner estava a dar luta nessa faixa em particular, com base nela consigo perceber como esse tipo de som pode ser apelativo para alguns ouvintes ou adaptar-se bem a alguns sistemas de som, com tanto detalhe disponível de forma tão frontal, tanta energia e projecção a sair das colunas... que na verdade são apenas os efeitos da compressão dinâmica aplicada nesta masterização (ou na mix tape que foi usada para masterizar). Apesar de eu preferir sempre, e também nessa faixa, a abordagem mais natural da MFSL admito que o estilo do LP da Speakers Corner tem algum mérito e para quem esteja mais habituado ao som comprimido pode à partida soar bastante bem, mas... assim que começa a segunda faixa fica rapidamente claro que a "receita" técnica aplicada na primeira faixa não iria ser tão positiva no resto do disco e os seus efeitos sonoros indesejáveis iriam tornar-se bastante mais proeminentes. A inferioridade desta edição da Speakers Corner tornou-se evidente com o ritmo mais acelerado da segunda faixa e por oposição à confusão sonora desta edição, a MFSL brilha dando sentido e espaço próprio a todos os instrumentos permitindo uma apresentação sonora mais coesa e mantendo o swing intacto exactamente onde o queremos, no bater dos nossos pés!

A edição da Speakers Corner não é propriamente má, longe disso, mas os comparativos têm destas coisas, são exercícios reveladores e que muitas vezes põem a nu realidades que nos eram invisíveis na audição isolada de cada um dos discos. Podemos viver anos com um disco e gostar imenso do som, até que vem outra versão e nos mostra como estávamos a ver apenas uma parte da equação... não é que isso torne a edição da Speakers Corner especialmente má (o que não é verdade), é sim que a edição da Mobile Fidelity é realmente excepcional, um trabalho extremamente cuidado e de muito bom gosto, perfeito sentido estético e capacidade para distinguir entre a audiofilia superficial que pretende fazer uma demonstração sonora e a audiofilia verdadeira que pode e deve contribuir decisivamente para uma relação mais directa e emocional com a música propriamente dita. A Speakers Corner é uma editora que tem feito algum trabalho de boa qualidade, tem inclusivamente no seu catálogo algumas reedições que são as melhores referências sonoras dos respectivos albuns (especialmente material rock/pop mais recente), e por outro lado a histórica MFSL que quase sempre fornece os audiófilos com material de primeira categoria também não é 100% perfeita e algumas reedições que tem criado ao longo dos anos não são melhores que os LP's originais ou outras edições de outras empresas do ramo, mas neste caso em concreto não há dúvidas em como a MFSL ofereceu ao Mundo a melhor reedição de sempre do mítico Round About Midnight de Miles Davis. Estou ansioso por ouvir o que terão feito com a reedição de Miles Davis Kind Of Blue que será lançada mais para o fim de 2013... tenho aqui as edições 100% analógicas e de alta qualidade da Classic Records (Quiex 200gr 33rpm) e a caixa de aniversário dos 50 anos de Kind Of Blue editada pela Sony Legacy com o LP em vinil azul e vários extras... ambas soam maravilhosamente mas com características distintas, espero poder compará-las com a futura edição da MFSL e publicar aqui o resultado brevemente.


Classificação ViciAudio: Música (0-10): 9   Som (0-10): 9   Produto / Valor (0-10): 9


Detalhes da Matrix do LP da Mobile Fidelity Sound Lab
Lado A: MFSL 1-373 A3   KW@MoFi   20921.1(3)
Lado B: MFSL 1-373 B3   KW@MoFi   20921.2(3)

Detalhes da Matrix do LP da Speakers Corner
Lado A: Columbia CL 949   S1   HCB-EBS   -16432- 
Lado B: Columbia CL 949   S2   HCB-EBS   -16432-

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domingo, 14 de julho de 2013

A rodar: Sigur Rós "Kveikur" (Ltd Edition 2xLP + CD & 10" vinyl record) Album Review



Depois de um hiato com cerca de quatro anos (incluindo Inni e Valtari pelo meio) e da saída de um dos membros da banda Kjartan Sveinsson que costumávamos ver ao piano, chegou a temer-se o fim da mítica banda Islandesa e da sua música de encantar. Em vez disso, os Sigur Rós trazem-nos o novo album "Kveikur", um sismo musical num regresso muito aguardado e que não sendo propriamente triunfal é um dos melhores ensaios que já ouvi neste ano de 2013 em que muitos albums e regressos têm surgido, mas nem sempre bem conseguidos ou ao nível das expectativas criadas. Como uma banda sonora de um filme de guerra (e mostrando talvez muitas feridas dignas de uma longa guerra), "Kveikur" consegue revelar a violência dos anjos, animais que rosnam de medo, máquinas e motores no red line que fazem tremer o chão, enquanto a voz doce de Jónsi nos ilude e engana juntamente com os mais belos sons que nos acariciam e sossegam numa ilusão de que tudo está bem. Se isto não é Sigur Rós... não é mais nada porque não conheço outra banda capaz de tal feito. Os Sigur Rós estão de volta. Le roi est mort, vive le roi!

"Kveikur" recupera de forma muito inteligente, e agora devidamente integradas no estilo histórico da banda, as nuances e ritmos introduzidos durante a produção de "Meo suo í eyrum vio spilum endalaust" (onde o produtor Flood teve influência decisiva). Aquela súbita alegria e leveza que soava de certa forma deslocada do contexto musical dos Sigur Rós foi agora reaproveitada e transformada em Sigur Rós puro, misturado nas entranhas e com as raízes originais como os elementos mais fantasmagóricos do album "Von". O resultado desta fusão são surpreendentes, não só porque revelam (finalmente) o potencial das tendências introduzidas por Flood e como elas faziam sentido à luz do histórico da banda, mas principalmente porque "Kveikur" é um album cheio de vitalidade e que coloca os Sigur Rós novamente na ribalta do mundo do Rock, Post-Rock e Art-Rock (e outros que tais), em vez de uma tentativa de regresso falhada, repetitiva ou sem sentido.


(no video em cima toca a faixa Hrafntinna / Obsidian no meu Rega P9)

Tive a sorte de assistir ao vivo quando os Sigur Rós actuaram pela última vez em Portugal (Campo Pequeno 2013) e nessa noite memorável a banda tocou algumas das músicas que compôem este album... a sinergia gerada logo numa primeira audição (algo que raramente acontece) era o sinal de que algo muito bom estava para vir e as expectativas não foram goradas. Com a saída de Sveinsson a bateria ganhou um arco-íris de tons com a percussão de muitos e diversos metais num festival sonoro industrial grandioso. Este carácter quase pirotécnico de "Kveikur" encontra sempre na voz de Jónsi uma almofada de bom gosto e a contenção necessária para manter o focus e a relação íntima com o ouvinte. Na última faixa do disco o piano volta a uma posição de relevo como uma voz do passado, acompanhado por um coro instrumental que parece um choro ou um lamento... Uma espécie de "Wish You Were Here" ou um Farewell de Jónsi para um amigo que com ele voou na maiores alturas e mergulhou até ao fundo das maiores profundezas?

Nesta edição especial limitada que faz acompanhar o duplo vinil LP de um CD (versão digital do album), vem também um disco "bónus" de  vinil de 10" com duas músicas no lado A que soam algo escuras e cruas e bem poderiam fazer parte da Playlist de Hannibal Lecter num dia mais aborrecido, são interessantes mas pouco mais acrescentam, e no lado B uma versão disco-beat de "Brennisteinn" que resulta muito bem e também nos traz à memória "Von Brigði" (1998), o disco de Sigur Rós remixed.

Existem duas prensagens, uma americana pela United Records Pressing, e uma europeia produzida na fábrica da francesa MPO. De acordo com a informação que me tem chegado, a prensagem da United não tem grande controlo de qualidade e o som sofre com demasiado ruído de reprodução, sendo preferível optar pela edição europeia que, não sendo perfeita (a MPO não é uma casa audiófila e o meu disco apresenta algum ruído que não é exagerado, uns "pops" e "ticks" ocasionais) é pelo menos de qualidade superior à prensagem americana, o que para nós até dá bastante jeito porque é a versão mais fácil de encontrar e menos dispendiosa para o consumidor português. A masterização tem excelente qualidade com a marca da casa Sterling e assinatura do experiente Ray Janos, o som é imponente e enérgico como a composição musical, resultado garantido para encher qualquer espaço com a grandiosidade de "Kveikur", sem dúvida menos congestionado e com maior realismo e dinâmica comparando com o CD que acompanha esta edição especial. Um disco indispensável na sua colecção, um dos grandes discos de 2013.



Sigur Rós "Kveikur" (2xLP Edição Limitada)
XL Records Made in EU (mas não indicado na capa) 2013
Catálogo: XLLP606X
Matrix Lado A: XLLP606-A RJ Sterling MPO
Matrix Lado B: XLLP606-B RJ Sterling MPO
Código de barras: 634904060602
Extras: Inclui CD com album completo e disco de 10" com faixas adicionais


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sexta-feira, 7 de junho de 2013

ViciAudio Vinyl Artworks - Vampire Weekend "Modern Vampires of the City"


Modern Vampires of the City é um album muito interessante onde os Vampire Weekend conseguiram esconder mais as suas influências "paul simoneanas" (que no album anterior me pareceram exageradas) e com vários momentos de puro brilhantismo... começando por "Step" que é um misto de canção de embalar com hino à felicidade, nas últimas semanas essa faixa e "Doin' It Right" (Daft Punk featuring Panda Bear) foram as que mais fizeram cintilar os meus neurónios juvenis e servem para cantarolar em qualquer lado. Depois um dos momentos mais arrepiantes é o grand finale de "Hannah Hunt" que nos apanha de surpresa e arrebata a alma. Também não posso deixar de referir uma faixa subtil como "Hudson", um trabalho mais nostálgico (todos os membros da banda têm uma forte relação com o rio Hudson) que vai um pouco contra a corrente "happy" do album e nos recorda que nem tudo são rosas e ainda sobra lugar para o desgosto e a desilusão. No entanto a tónica geral é de felicidade absoluta, um disco concebido para saltar e rir (e provavelmente feito a saltar e a rir) com uma assinatura musical muito simples e despreocupada.

A prensagem europeia produzida na MPO (em França) tem excelente qualidade e provavelmente, de acordo com as tendências das últimas prensagens, é melhor do que a prensagem americana da United Records masterizada a partir da mesma fonte, o disco de vinil é bastante silencioso e livre de imperfeições, permite usufruir com a melhor qualidade possível de Modern Vampires in The City, um disco cuja produção sonora assenta numa estética particular e onde a qualidade audiófila da gravação não foi uma prioridade, em vez disso a opção parece recaír mais numa sonoridade um pouco "low-fi" como tem sido recorrente por parte de muitas bandas do mesmo género. O vinil é ainda assim a melhor forma de ouvir este disco, possivelmente produzido a partir de uma master digital de alta resolução como é hábito hoje em dia ou simplesmente por ter sido masterizado com maior cuidado. É seguramente um dos melhores discos de 2013...

Vampire Weekend  "Modern Vampires of the City"
XL Records Made in EU (mas não indicado na capa) 2013
Catálogo: XLLP556
Matrix Lado A: XLLP 556 A   MPO
Matrix Lado B: XLLP 556 B   MPO
Código de barras: 634904055615
Extras: Inclui CD com album completo e Poster

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