quarta-feira, 10 de março de 2010

A rodar: José Cid - 10,000 Anos Depois Entre Vénus e Marte (LP Orfeu 1978)





Como todos sabemos, o José Cid é famoso em Portugal pelos seus temas mais populares, artisticamente pouco ambiciosos apesar de tecnicamente e comercialmente muito válidos, que demonstram parte do seu génio e a sua impressionante capacidade de produção musical. No entanto, não é essa vertente aquela que merece destaque na carreira do músico, que viu nos últimos 5 anos o renascer da sua popularidade e uma espécie de regresso aos palcos e à ribalta da comunicação social. Há outro José Cid, a quem raramente o público português soube dar espaço, que procurou e explorou estilos musicais diferentes e com outras aspirações.


No panorama "rock" nacional dos anos 70 várias bandas e artistas portugueses como os Tantra, Quarteto 1111 (em que Cid participava), Petrus Castrus e outros, criaram boa música, interessante e tecnicamente bastante evoluída, que eu não teria qualquer dificuldade em classificar ao mesmo nível de grandes nomes internacionais como os Genesis, King Crimson, Emerson, Lake & Palmer, Moody Blues ou mesmo Pink Floyd. No entanto, este trabalho do José Cid foi o que obteve maior reconhecimento internacional, com uma qualidade acima da média, e rompendo nítidamente com uma certa "tradição portuguesa" para criar um album verdadeiramente "internacional" na sua sonoridade e no estilo adoptado, sem no entanto perder ou deixar escapar algumas características que o tornam único e sem qualquer dúvida, luso! "10,000 Anos Depois Entre Vénus e Marte" chegou a ser incluído numa lista publicada pela conceituada revista Billboard, com os 100 melhores albums de rock progressivo de sempre, além de ser presença regular em inúmeras listas do mesmo tipo criadas e mantidas por fans do rock progressivo em geral por esse mundo fora.. Estamos a falar de um artista português, e de um album cantado em português. É obra!


Reza a história que José Cid fez o album a seu gosto, naturalmente, e quando o apresentou à editora houve alguma resistência à sua edição, talvez por receio de não haver mercado em 1978 para este tipo de música em Portugal, e também pelo custo elevado de fabrico das capas coloridas, com fotos grandes no interior e com aquelas seis páginas de ilustrações, o que levou o artista em desespero de causa a abdicar de todos os seus direitos financeiros sobre o disco para que, em troca, o disco fosse lançado e o seu trabalho não tivesse sido em vão. Diz-se que este episódio marcou profundamente a atitude do artista para com a indústria musical em Portugal, bem como desta para com ele, e que isso o perseguiu durante toda a sua carreira no nosso país... Seja como for, fruto da sua persistência e altruísmo, o disco foi lançado, e é hoje em dia a obra maior de José Cid, aquela pela qual mereceu e conquistou o respeito de toda a elite do rock mundial (contrastando com a sua música para festas populares que tanto agrada aos portugueses).


Trata-se de um típico "concept album", a que o próprio José Cid costuma chamar de "Ópera Rock", baseado numa história muito simples em que a Terra é destruída pelos erros da Humanidade, um casal foge para salvar a espécie e regressa 10,000 anos mais tarde para encontrar um planeta virgem resplandecente e começar de novo esta nossa aventura da existência. O pretexto está lançado para vários temas musicais de grande qualidade, autênticas "jam sessions" de fazer bater o pé intercaladas por momentos de quase música ambiente que geram uma atmosfera especial e nos transportam para o espaço, em que o uso de "Moogs" e "Mellotrons" por José Cid tem destaque, bem como o excelente trabalho de Zé Nabo, Mike Sergeant e Ramon Galarza no baixo, guitarras e bateria. Recomendo a audição deste trabalho, de forma aberta e sem preconceitos, e devidamente contextualizada no âmbito da época e da corrente do rock progressivo, espacial e sinfónico em que este album se enquadra. É surpreendente, chega mesmo a deixar em estado de choque quem ouve esta música sem nunca ter conhecido "este" José Cid (eu sei, pois foi o que me aconteceu não há muito tempo)!


Relativamente a edições existe a original em vinil, lindíssima, de 1978 (Orfeu FPAT6001, editado por Arnaldo Trindade & CIA), com várias páginas interiores que apresentam as letras e uma mini-história em imagens (Desenhos de Isabel, ver fotos). Hoje em dia é um disco de colecção, raro e caro (diz-se que não foram produzidas mais de 1000 unidades), já os vi à venda em leilões do Ebay a começar em $1500 USD, e diz-se que no Japão chegam a dar 4000 Euros por uma unidade "como nova" deste disco... em Portugal por vezes encontra-se por valores a rondar os 300 Euros, ou muito mais, depende da condição do disco e da capa. Aparentemente nunca houve qualquer outra edição em vinil, oficial ou "bootleg", nem qualquer reedição nesse formato. O som do vinil original é melhor do que qualquer um dos CD's que conheço deste album, e apesar de não ter o som mais natural ou transparente que já ouvi do vinil, não deixa de ser um disco com som agradável e que satisfaz plenamente, com baixas frequências poderosas e "imensas", e restante espectro "honesto", com o som natural que esperamos do vinil. Não se trata obviamente de uma edição audiófila, pelo que para o género musical e para o espírito em que foi produzido, o som é muito bom e, pricipalmente, a sua audição dá um "gozo do caraças"!


No que diz respeito aos CD's nenhum deles é perfeito em termos sonoros (o LP supera qualquer um deles), e importa frisar que existem rumores que dão as "tapes" originais como desaparecidas há muitos anos, portanto não é de espantar que alguns ou mesmo todos estes CD's tenham sido feitos a partir da digitalização do vinil, e respectiva masterização para CD. Existem pelo menos quatro versões diferentes, que a seguir descrevo.

Uma edição americana de 1994 por uma empresa de Los Angeles chamada Art Sublime (ASCD 1194-005), que editou o CD numa réplica em tamanho real, e de grande qualidade, que imita o LP original e suas ilustrações. É, no fundo, praticamente igual ao LP, mas em vez de um disco e vinil traz lá dentro um CD. O som tem a gama baixa mais definida de todos os CD's, mas parece-me ser um "needle-drop" de vinil equalizado para dar maior ênfase às gamas altas, o que torna os címbalos de bateria e algumas partes dos teclados demasiado fininhos e estridentes, acaba por ser incomodativo. Esta edição parece usar a mesma masterização que foi aplicada por uma editora Japonesa chamada Marquee (MAR-04955), mas não me foi possível confirmar essa informação, onde também foi editado como réplica do LP original, em cartão e com os desenhos no interior, mas em tamanho reduzido como um CD normal.

Depois existem duas edições cuja sonoridade é muito semelhante, pelo que tive oportunidade de ouvir e testar. A edição nacional da EMI/Movieplay (1999 - MOV 30.399), que se pode encontrar nas lojas hoje em dia, e uma edição de uma empresa coreana chamada M2U (M2U-2004), neste caso também em formato de répilca do LP original em tamanho reduzido para CD normal. A única diferença de relevo é que, no caso da edição da M2U, e o mesmo acontece com a edição da Art Sublime, o CD inclui como extra o EP "Vida Sons do Quotidiano", também de José Cid, e que por acaso é muito interessante. O som, em geral, tem um grave demasiado presente e artificial, chega mesmo a ser balofo e invade toda a restante gama de frequências, mas por outro lado não tem o problema dos agudos da edição Art Sublime, apresentando tonalidade e presença com muito maior naturalidade para os címbalos e teclados.


De uma forma geral diria que o vinil é sem dúvida a melhor opção para ouvir este disco, pois apresenta o som mais equilibrado e natural. Dos CD's, acho que a nossa edição nacional consegue ser a melhor opção e mais fácil de encontrar, mas a versão coreana da M2U com qualidade de som praticamente igual tem a vantagem de permitir apreciar o aspecto do LP original e seus conteúdos gráficos (embora em tamanho reduzido de mini-LP réplica), e ainda traz a faixa extra que referi anteriormente... não é difícil encontrar esta versão no Ebay, ou mesmo em algumas lojas nacionais onde já o vi, como a CDGO ou a ProgCDs.


Para finalizar este "post" aqui no ViciAudio, descobri que este mesmo grupo de músicos iniciou, por volta da mesma altura, um outro projecto deste género criado por José Cid, chamado Vozes do Além. Aparentemente um projecto inacabado, com poemas de Natália Correia e Sofia de Mello Breyner, mas correm rumores de que foi reunida uma nova equipa para finalizar o projecto (de finais dos anos 70) e editar em disco, agora que José Cid parece ter recuperado algum mercado "alternativo" com este seu ressurgimento para o público dos últimos anos.

Aproveito também esta oportunidade para perguntar, a quem esteja a ler isto e porventura saiba dar-me esta informação: QUEM É A ISABEL? A capa e ilustrações do interior do LP são assinados por "Isabel". Acho que o "artwork" deste disco é fenomenal, e gostava de saber mais sobre a autora... quem sabe ela não terá feito outras coisas nesta área? Se alguém souber, por favor queira contactar-me ou deixar um comentário aqui no ViciAudio. Muito obrigado!

Links interessantes. No Youtube um outro fan do "10000 anos..." colocou todas as faixas do disco online, para que todos possam ouvir e apreciar a música:
http://www.youtube.com/watch?v=KKiq42Jk7VY   http://www.youtube.com/watch?v=VJod25sYlMo
http://www.youtube.com/watch?v=KuHrTqeYIRw   http://www.youtube.com/watch?v=WvYbFF7hYDs
http://www.youtube.com/watch?v=eeSKfVpLtEY   http://www.youtube.com/watch?v=-6yr4v00M3c
http://www.youtube.com/watch?v=d4b4Wep4OVo   http://www.youtube.com/watch?v=J-qtewC2yzA

Informação diversa:
http://www.progarchives.com/album.asp?id=3537   http://www.hippy.com/php/review-320.html
http://en.wikipedia.org/wiki/10,000_Anos_Depois_Entre_Venus_E_Marte  
http://www.discogs.com/José-Cid-10000-Anos-Depois-Entre-Vénus-E-Marte/master/199594

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Para ver e ouvir no http://ViciAudio.blogspot.com


www.VinylGourmet.com - Discos de Vinil / Edições Audiófilas

22 comentários:

  1. Obrigado por me dar a conhecer esta obra. Estou verdadeiramente impressionado.

    Miguel Cabeça

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  2. Uma pequena sugestão, se me é permitido. No seu post afirma: "bem como o excelente trabalho de Zé Nabo, Mike Sergeant e Ramon Galarza nas guitarras, baixo e bateria." Para ser absolutamente correcto e não induzir em erro os leitores menos conhecedores, a ordem apresentada deveria ser: baixo, guitarras e bateria.

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    1. Já agora, também se me permitem, e para ser totalmente correcto, O Zé Nabo é quem toca o baixo e as guitarras em todas as faixas, à excepção da faixa 2 "O Caos" em que participa o Mike Surgeant e toca guitarra de 12 cordas....
      Isto é para não induzir os leitores em erro e para esclarecer os que pensam que Mike S. é que tocava as guitarras.
      De realçar a genialidade e versatilidade do grande músico que é o Zé Nabo.

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  3. Boas, está corrigido, muito obrigado por chamar a minha atenção, de facto podia induzir em erro.

    Sérgio

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  4. Interessante trabalho. Obrigado pela oportunidade de ver o artwork desta obra-prima.

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  5. Consta que ISABEL a autora dos desenhos seja a filha de José Cid...

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  6. De facto é triste (devido á mentalidade dos portugueses,do que o que vem de fora é que é bom,note-se que na altura ouvia-se Pink floyd,Genesis,Yes etc etc etc )uma pessoa só ter a oportunidade de escutar uma obra-prima destas.Mas enfim nunca é tarde para se disfritar de música como esta,na lingua de Camões

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  7. Eu queria este vinil...
    E' uma obra fantástica! Considerado uma Masterpice of Progressive Rock.

    Quanto ao preco. Ja' o vi no ebay a venda 1 vez por 8,000 euros, vendeu logo em 3 dias... No leiloes por 6,000 euros, nao teve la' muito tempo...

    So' se fizeram 3,000 copias.

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    1. Se conhecer alguém interessado, tenho um e quero vender. Obrigado

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  8. Eu tenho uma edição em vinil e uma edição em CD de tamanho normal com as ilustrações que estão no LP e que sempre ouvi dizer que foram feitas pela filha do José Cid. Gostaria de chamar a atenção para um outro álbum de José Cid chamado Onde Quando Como e Porquê Cantamos Pessoas Vivas que saiu depois de 10 000 anos depois e que existe uma edição em CD que pode ser encontrado à venda em lojas (eu comprei na Fnac) que é excelente.

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    1. Boas, conheço bem o "Onde, Quando, Como, Porquê, Cantamos Pessoas Vivas" que é um album do Quarteto 1111 onde José Cid participava e foi gravado em 1974, antes do "10000 Anos". Foi editado em CD há pouco tempo (há uns 2/3 anos) creio que pela primeira vez nesse formato, e também foi feita uma reedição em vinil há pouco tempo, pela Guersen.(http://www.guerssen.com/cont_sello.html)

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  9. Tenho o LP original comprado na rua augusta por 5 tostoes :D se houverem compradores interessados fico a espera de um post aqui no blog.

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    1. Olá Carlos, estou interessado. Qual seu e-mail para contato?

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  10. Olá Carlos, estou interessado. Qual seu e-mail para contato?

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  11. Gostava de saber se alguém tem este LP para vender ?

    Chamo-me Daniel Santos e o meu email é o ardagosa@gmail.com

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  12. Tenho um exemplar da edição original de 1978 ainda selado e outro também de 78 assinado pelo Cid. É uma obra de arte!!!

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    1. quanto quer pelo original selado?

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    2. Caro amigo
      O LP selado é uma reliquia... Apenas o venderia por um valor alto....

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    3. Eu tenho LP original e muito bem tratado. Está impecável!
      Alguém interessado mande e mail para monteiro.sandra70@gmail.com

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  13. Eu tenho dois exemplares, como novos, desta edição original de 1978. Estou interessado em vender um deles... o meu contacto é: monty_python_fc@hotmail.com

    Obrigado!

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  14. Estive no concerto do José Cid de apresentação deste disco no passado 15 de Novembro e, no final, enquanto os cds e vinis eram autografados tive a resposta para a pergunta "Quem é Isabel?"
    Isabel era a companheira ( não sei se esposa ) de Zé Nabo baixista do album. Esta informação foi dada pelo próprio que também disse que têm um filho em comum e que a senhora, infelizmente, já faleceu.

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