domingo, 15 de novembro de 2009

Still Vinyl 2009 - O pelotão do meio...

Mais vale tarde do que nunca, e antes que o nunca aconteça cá estou eu para continuar a minha review do Still Vinyl 2009. Depois de ter enunciado aquelas que para mim foram "A Melhor Sala do Show" e as duas "Menções Honrosas" que compõem o pódio analógico, serve este post para descrever de forma rápida as salas que não me agradaram tanto mas que mesmo assim permitiram ouvir música com algum agrado, razoavelmente boas mas sem uma performance de destaque no "som" global do evento, cuja performance não excedeu os limites do "bom", quando se calhar seria de esperar excelente ou mesmo superlativo, face aos valores de alguns sistemas.

(sala da Cenestesia com as Sonus Faber a encher a vista e válvulas para aquecer o ambiente)

Começo pela Cenestesia, onde as Sonus Faber (seriam as Stradivari Homage numa edição limitada e numerada?) dominavam o cenário com a sua presença imponente e elegante ao mesmo tempo. Atrás delas um gira-discos de cuja marca não me recordo (seria um Michell Gyrodec?), acompanhado de um pré de phono Trichord Dino com PSU externa adicional que me pareceu interessante, amplificação a válvulas Jadis e lá estavam também os cabos de coluna da Nordost (não sei qual o modelo). O som que ouvi, especialmente no primeiro dia, agradou-me mas sem encantar, uma performance contida e sem falhas flagrantes, mas faltava qualquer coisa para se tornar realmente especial e permitir um maior envolvimento. No segundo dia foi pior, a escolha dos discos foi mais arriscada com material mais complexo e por vezes mais violento, e isso revelou uma certa tendência para o som ficar "agarrado" ás colunas, sem a criação do palco imaginário livre de constrangimentos que seria de esperar deste nível de equipamentos. Notei também que a performance perdeu alguma da consistência e segurança com o programa musical mais complexo, tornando-se mais confusa, com menor definição e separação de sons, como se as colunas estivessem a precisar de rodagem.

(sala da Polifer com os belos equipamentos da Burmester e um som em geral de boa qualidade)

Na sala da Polifer encontrei um ambiente geral de maior silêncio do que na maioria das outras salas, como se houvesse mais respeito e atenção à performance do sistema. Não sei porquê, talvez fosse por causa do aspecto mais sério e formal dos equipamentos da Burmester (amplificação e colunas), com um gira-discos e pré de phono da Transrotor, com cabos de coluna da Nordost (Heimdall). Seja como for, na verdade tocava boa música com um som agradável, com boa presença "holográfica" e muito detalhe, mas como noutras ocasiões em que ouvi equipamentos da Burmester, fico sempre com uma sensação de contenção exagerada, uma certa falta de dinâmica, de "snap", de "bang"... enfim, de emoções fortes que também definem a qualidade de um sistema. Não pode ser tudo "relaxed" e distante... e é esse o "pecado" que notei na sala da Polifer. Dependendo do disco, o som oscilava entre o bom, e o "estranhamente" atenuado. Eu pessoalmente prefiro sistemas com maior vivacidade, velocidade e dinâmica, daqueles que nos contagiam. Como li há dias numa publicação da especialidade (e numa tradução livre) "quando um sistema toca assim tão bem, toda a música se torna contagiante" e isso não anda longe da verdade, mas não anda perto da Burmester, pelo que já ouvi desta marca até hoje, e creio que será uma opção estratégica da marca, em ter aquele tipo de som, que aliás tem muitos adeptos. O Transrotor pareceu-me uma proposta sem grande relevo no leque de ofertas disponíveis hoje no mercado. Gostei muito da simpatia dos anfitriões da sala da Polifer que me pareceram sempre muito profissionais e disponíveis, e apesar da falta de contágio musical, dentro do que já estava habituado, a performance do sistema foi positiva. Só não passou do nível "bom" para outros, e se calhar devia pois estes equipamentos não são baratos.

(sala da Audioelite com as belas - diferentes - colunas Thiel a dominar o pouco espaço disponível)

Na Sala da Audioelite ouvi pela primeira vez umas colunas Thiel, com gira-discos Oracle Delphi MK V, e amplificação da ASR e da YBA, e gostei do que ouvi, de uma forma geral. O som tinha uma naturalidade desarmante, tornando o ouvinte parte da performance, uma apresentação "tu-cá-tu-lá" de que gosto particularmente, com transientes pujantes, texturas ricas e tons vibrantes. Quando lá estive tocava um excelente vinil de Keith Jarrett (Standards Live - creio eu) com prensagem ECM (bela escolha), creio que seria a alemã e não a americana, e a música tornou-se "familiar" muito rapidamente. As principais falhas que impediram a sala da Audioelite de estar no pódio prendem-se com questões "audiófilas" de palco sonoro (um pouco reduzido), extensão da resposta do sistema (talvez muito centrado na gama média, embora o que fazia fazia muito bem), e depois a própria sala que era muito pequena e dificultou bastante uma audição livre de constrangimentos. Fica para uma próxima oportunidade um envolvimento mais acentuado, uma audição mais livre, com as Thiel que me pareceram muito interessantes mesmo, e muito diferentes da maior parte das outras propostas na forma como apresentam o som, a projecção sonora que fazem e a forma como envolvem facilmente o ouvinte na sua teia de musicalidade. Foi também um prazer falar com o anfitrião da Audioelite, muito simpático e prestável. Deste "pelotão do meio", talvez esta sala tenha sido a que mais me agradou.


(sala da Viasónica com as voluptuosas B&W 802D e mais um "masterpiece" analógico de Rui Borges)

Tive pena de encontrar as B&W 802D numa sala, da Viasónica, tão pequena e sempre tão cheia de ouvintes, o que em nada ajudou a perceber de facto qual o valor desta combinação com electrónica "hardcore" da McIntosh, tão bem alimentada por um imponente e complexo gira-discos Rui Borges Turntables. Sejamos claros, as 802D não sabem tocar mal, são umas das colunas que mais admiro e no seu segmento não me parece que exista real e eficaz concorrência, mas precisam de actuar num espaço adequado, e não é qualquer amplificação que se dá bem com elas. Estas em particular pareceram-me um pouco desgastadas avaliando pelo aspecto "físico" do cone FST e das caixas... Como ideia geral, o som estava bom, e a música tocava capaz de entusiasmar minimamente, mas fiquei com a impressão de que a combinação McIntosh/802D não será a mais feliz, ficando a faltar a dinâmica fulgurante que conheço destas colunas e também algum detalhe, alguma "micro-informação" que me pareceu ausente. Mas é injusto tirar conclusões demasiado contundentes a partir de uma audição que não foi muito cuidada, talvez houvesse ali factores que impediam o aparecimento completo da possível sinergia do sistema. De qualquer forma, uma prestação positiva, dentro da média do show, e gostei de ver/ouvir uma combinação pouco habitual marcas e equipamentos.

(na sala do Rui Borges Turntables em conjunto com a Zenaudio, a estrela foi mesmo o novo RBT Uno)

Com material Goldenote na cabeça e na secção de phono, e umas enormes colunas Xavian Mediterranea, o novo Rui Borges Turntables Uno mostrou mais uma vez que o Rui sabe o que faz. Por um preço entre os 2500 e os 3500 euros consoante as opções, e incluindo fonte de alimentação externa, braço e cabeça, o RBT Uno com base semi-rígida pareceu-me uma proposta interessante e "terrena". Tive pena de não ter conseguido que o Rui Borges me explicásse mais pormenores sobre o Uno, quando lhe perguntei (como potencial cliente diga-se de passagem) quais as características relevantes da máquina ele não se mostrou muito disponível, suponho que terá sido por causa de um ambiente bastante activo e "mexido" que havia na sala e que lhe roubou a atenção. No entanto, gostei de ouvir o Uno e de o ver ao vivo, deu para perceber algumas das suas virtudes, tal como dos equipamentos da Goldnote que me pareceram também eles merecedores de alguma atenção, isto apesar das Xavian Mediterranea com a sua típica e já conhecida apresentação sonora retraída e distante, com um carácter "abafado" que é aliás comum e vários modelos da marca, ao gosto de muitos aparentemente, mas não do meu. Numa das muitas audições da inevitável faixa "Stimela" de Hugh Masekela que fiz durante o show, com as Xavian foi onde a dinâmica e os transientes mais sofreram, sem dúvida, e sei que não foi algo provocado pelo RBT Uno nem pelos Goldnote porque já ouvi esta "sonoridade típica" das Xavian noutras ocasiões. Apesar de tudo um som de boa qualidade, mas que deixou muito a desejar para se destacar do pelotão.


(numa das salas da Delaudio um sistema pequeno, mas com genica, e musicalidade simples de bater o pé)

A Delaudio esteve presente em duas salas, uma boa, e outra má. Aqui falarei apenas da que estava boa e que me deu prazer lá estar a ouvir música, pelo carácter simples, directo, descomprometido e até acessível de um sistema composto pela novas colunas Monitor Audio RX1 alimentadas por amplificação Advance Acoustic e Primare, e tendo como fonte analógica um interessante Roksan Radius com suspensão e braço "unipivot". Os discos sucediam-se, e as pequenas RX1 mostravam que o tamanho não importa nada (so they say...) e que são capazes de o fazer em pouco espaço sem estragar quase nada e dando prazer a quem o desejar. Um som com a contenção expectável para um sistema deste género, mas sem se tentar exceder a si próprio, com uma gama média bem projectada e um palco sonoro credível (embora pequeno), e onde nunca notei nenhuma falha ou fenómeno sonoro estranho digno de nota. Ouvi de tudo, gostei de tudo, deu-me gozo relembrar o "American Prayer" de Jim Morrison, e falar com o simpático anfitrião da sala. Sem a dinâmica e a resolução que permitem acesso ao pódio, este sistema e esta sala estão no topo do pelotão do meio, com distinção.

No espaço reservado à Pauca Sed Bona (ver foto aqui ao lado), tocava boa música com a qualidade possível num espaço aberto e de passagem... de facto seria mais um hall do corredor de acesso a outras salas, do que uma verdadeira sala de audição. Sem dúvida uma opção corajosa do João Gouveia, mas que não permitiu ouvir e ver com a devida atenção os equipamentos expostos. Entre estes destaca-se a Avid com os seus gira-discos, por ser uma nova representação em Portugal de uma marca muito premiada e respeitada "lá fora", e os já conhecidos componentes da Pure Sound, entre eles o pré de phono Pure Sound P10 que já tinha tido a oportunidade de ouvir e que me deixou muito bem impressionado pela segunda vez consecutiva, sem dúvida um aparelho a considerar. Nas precárias condições em que se encontrava o espaço da Pauca, não me foi possível fazer uma audição muito crítica, sendo que havia dois sistemas distintos em audição gostei de ouvir o "maior" com as XTZ de chão e o gira-discos Avid de gama média/alta, mas por outro lado o sistema mais económico com as XTZ "monitoras" e o Avid Diva ja não me pareceu tão interessante sendo afectado por uma predominante agressividade e aspereza das frequências mais altas (não sei qual a causa nem qual o componente "culpado" por esse fenómeno), apesar de ter também outros pontos a favor para um sistema a que podemos chamar quase "barato". Prestação global positiva para a Pauca Sed Bona, João Gouveia prestável, ainda por cima acompanhado por representantes da Avid e da Pure Sound que se deram ao trabalho de vir a Portugal assistir ao evento. Acho que fizeram muito bem.

Brevemente, o post sobre a "cauda do pelotão" do Still Vinyl 2009, onde lhe vou contar o que me soou mal ou muito abaixo do esperado neste evento.


www.VinylGourmet.com - Discos de Vinil / Edições Audiófilas

2 comentários:

  1. Boas.
    Alem das marcas em exposição e das opiniões sempre pessoais sobre a performance de equipamentos, ainda mais em eventos deste natureza com as dificuldade inerentes, queria dizer duas palavras.
    Para já os parabéns pela paciência em fazer um comentário tão detalhado ao evento. Faltam militantes data natureza a este hobbie, sendo de acarinhar todas as iniciativas
    uma segunda palavra para a exposição de equipamentos vintage que se realizou em paralelo e cuja opinião e comentários seriam apreciados.
    PCS

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  2. Boas,

    muito obrigado pela visita e pelo comentário. Vou fazendo o ViciAudio por puro prazer, mas infelizmente o tempo não chega para desenvolver o blog como gostaria e à velocidade que seria desejável... são dezenas os temas que tenho numa lista e que gostaria de desenvolver aqui, o que à mistura com a vontade de comentar discos, eventos e equipamentos, se transforma numa missão de facto muito complicada de executar. Mas enquanto me der gozo, vou fazendo qualquer coisa :)

    Não sou muito conhecedor da história dos gira-discos, até porque só tenho um há cerca de 6 meses, pelo que não sou a pessoa mais indicada para comentar as belas máquinas que estavam em exposição no Still Vinyl 2009, mas tirei algumas fotos que vou tentar publicar brevemente e que poderão dar uma ideia geral sobre os equipamentos que lá estavam expostos.

    Desejos de boa música para matar o ViciAudio :)
    Sérgio Redondo

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